segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Barroso da Fonte 2

GUIMARÃES, BERÇO DE AFONSO HENRIQUES(2)

Autor: Noticias de Guimarães em Quinta-feira, 29 Outubro 2009

À medida em que vamos desbravando os caminhos percorridos que nos reconduzem aos primórdios da nacionalidade, mais fortes razões temos para reafirmar que podem os pretensos historiadores profissionais, podem os dirigentes mais propensos ao corporativismo entrelaçar as mãos e os pés; podem estrebuchar os ávidos de fama e de proveito: Afonso Henriques nasceu onde sua mãe estava quando teve o parto. Mas não, seguramente, em Viseu e, muito menos, em 5 de Agosto de 1109, como o historiador viseense Almeida Fernandes tentou fazer crer.Custa-nos muito a acreditar que as forças vivas de Viseu, a começar pela Câmara, tenham dado tanto crédito a um palpite que não tem pés nem cabeça. E que esse devaneio tenha tido tal impacto que todos os mais audíveis órgãos de informação, a começar pela televisão pública, se tenham deixado enredar numa teia da mais pura ficção. Esse devaneio ludibriou a opinião pública, implicou despesas do Estado nocivas à cultura e aos interesses nacionais. E até ameaçou alterar os manuais escolares, através da Academia de História, cuja presidente, de um dia para o outro, deu o dito por não dito, a ponto de logo ter à sua beira os holofotes televisivos e radiofónicos mais atentos, para escancarar as portas do bom senso aos tentáculos do protagonismo mais bacoco. Vamos estar atentos àquilo que vai passar-se nos dias 20 e 21 de Novembro na Academia de História. Espero não ter que invocar neste espaço aquela expressão que o imortal Historiador Alfredo Pimenta disse quando, sendo Académico de Número (9) desta prestigiada Instituição, fundada em Julho de 1937, acabaria por ser ameaçado de expulsão, por ser rigoroso em certas datas históricas, como por exemplo a da descoberta do Brasil, em 3 de Maio. A polémica chegou longe e Pimenta resistiu àquela caverna de bandoleiros, como chamou aos seus pares da Academia Portuguesa de História.
Cada dia que passa sinto-me mais reconfortado com provas indesmentíveis que me chegam de leitores, deste e de outros jornais, onde tenho pugnado em defesa da tradição. Sei que há Vimaranenses, democraticamente eleitos, que já publicamente se comprometeram a liderar um movimento cívico que mobilize a sociedade civil. A intenção é (re)celebrar em 2011 os 900 anos do nascimento do rei fundador.
O Dr. Narciso Machado tem sido um aliado fiel a esta nobre causa, incluindo neste semanário. Na penúltima semana referiu-se ao romance Afonso, o Conquistador, da autoria de Maria Helena Ventura, Mestre em Sociologia e escritora nacional de renome. Ela defende a tradição, repudiando Viseu. Entretanto, através do Jornal de Matosinhos, onde igualmente me tenho batido por esta causa, chegou-me um email que me indica outra romancista, Cristina Torrão, autora de Afonso Henriques – o Homem (Editora Ésquilo). Teve ela o bom gosto de inserir uma nota final que ocupa seis páginas (da 421 à 426), onde refuta José Mattoso pelo apoio que deu à tese de Viseu, escrevendo abertamente: «Para nascer em Agosto de 1109, Afonso Henriques teria que ser gerado em Novembro/Dezembro de 1108». Ora, como o próprio José Mattoso nos diz na página 31 do seu polémico livro (de Temas e Debates), por ocasião das cortes de Toledo no Verão de 1108, Afonso VI, anunciou a ruptura do vínculo de fidelidade do Conde D. Henrique. «Este teria então encetado uma viagem ao seu país natal (Borgonha), o que quer dizer que, na altura em que Afonso Henriques deveria ter sido gerado, seu pai estava longe do condado Portucalense e só terá regressado no Verão de 1109. É claro que D. Teresa poderia ter acompanhado o marido nessa viagem. Mas teria ela regressado de gravidez adiantada? Na época, não era nada habitual mulheres naquela situação empreenderem viagens longas. Seria muito mais lógico que ela esperasse pelo nascimento da criança na Borgonha».
Cristina Torrão, natural de Castelo de Paiva, já laureada com diversos prémios dos mais cobiçados do país, nomeadamente vencedora do Concurso Literário O meu 1º Best-Seller do Modelo/Continente, em parceria com as edições Asa, com o livro A Moura e o Cruzado, a viver, como escritora profissional na Alemanha, onde casou, diz a seguir a este fortíssimo argumento: «na posse da minha liberdade de escritora, decidi que o «meu» Afonso Henriques tivesse nascido em Março de 1108, por uma razão muito simples: se ele tivesse apenas três anos quando o pai morreu, seria difícil que revelasse os sentimentos de que o dotei no prólogo (do meu romance) e que a memória desse dia lhe ficasse marcada».
Esta romancista leu e releu muitas e variadas obras sobre Afonso Henriques e sobre a época em que ele nasceu. Fê-lo para escrever esta obra de referência e ainda a Moura e o Cruzado, que mereceu aquele prémio, em Julho de 2007.
É por estas e por outras que a teoria de Viseu é um disparate que fez parar o país e ludibriou toda a gente, à excepção de uns quantos, incluindo profissionais que mudam de ideias como quem muda de roupa. Até 1990 ninguém dissera que Afonso Henriques viera ao mundo em Viseu. Muito menos alguém dissera ou escrevera que os condes ali tiveram residência. Se tal tivesse acontecido haveria rastos de tradição. Nada disso, nem nomes nas ruas, nem instituições com eles como patrono, nem coisa que o valha. Vigora lá a tradição de Viriato (com o Teatro Municipal Viriato) que nasceu mil anos antes de Afonso Henriques. E, contudo, não tem nada alusivo ao nosso Rei Fundador, nem a seus pais. Que milagre se deu em 1990 para que um qualquer historiador, sem qualquer prova documental, tenha lançado o barro à parede, vindo, agora, os seus familiares e amigos reclamar esse palpite como a maior descoberta de sempre. Ao que chegaram os nossos «intelectuais»…
Barroso da Fonte

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